Sintonia fina

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O chef Edinho Engel e o artista plástico Bel Borba têm muito em comum, da inquietação ao bom humor

Por Walterson Sardenberg Sº
Foto: Reinaldo Mandacaru

O mineiro Edson Vieira Engel e o baiano Alberto José Costa Borba são amigos. Muito amigos. Quando podem, estão juntos na cidade de Salvador, onde moram. A amizade se estendeu às respectivas mulheres, Wanda e Meire. Ficou tudo em família.

Eles têm mesmo muito em comum. A começar pela faixa de idade — 57 anos, o mineiro; 56, o baiano —, pelo temperamento extrovertido, pelo agudo senso de humor e pelo fato de serem mais conhecidos pelo apelido. Edson é o premiado chef Edinho Engel. Ganhou fama em virtude dos restaurantes Manacá (aberto há 25 anos na praia de Camburi, no Litoral Norte de São Paulo, e ainda na ativa) e Amado (inaugurado no ano de 2006, em Salvador). Alberto, por sua vez, é o admirado artista plástico Bel Borba, dono de uma promissora carreira internacional. Além das exposições individuais em Lisboa, Florença, Buenos Aires e Paris, transformou-se, no ano passado, no protagonista do documentário Bel Borba Aqui, de 95 minutos, dirigido pelo taiwanês Burt Sun e pelo americano Andre Constantini.

Outros pontos em comum entre estes cinquentões de bem com a vida são a versatilidade e a busca no trabalho de uma identidade brasileira. Edinho tornou-se mestre em levar para a alta gastronomia ingredientes populares, casos do licuri (coquinho de uma palmeira nativa da Mata Atlântica), do maturi (castanha verde do caju), do quiabo e do maxixe. Considera um de seus pratos mais reveladores desta busca a pescada amarela em crosta de castanha de caju, com caruru, purê de banana da terra e um blend de arroz selvagem. A seu ver, seus principais atributos profissionais são a facilidade de lidar com as pessoas, a capacidade de fazer restaurantes e de interpretar o desejo dos clientes e passá-los aos funcionários. Sem estresse.

Bel começou a carreira montando admiráveis mosaicos nos muros de Salvador, utilizando cacos de azulejos, ainda na década de 1970. Tornou-se pintor, escultor, gravador, videomaker e ceramista. Em nenhum momento esqueceu o mote da interferência urbana, a vontade de expor sua arte nas ruas. Ainda há pouco, convidado, passou um mês em Nova York criando a partir do que encontrava nas calçadas. Até barreiras de trânsito e chiclete grudado no asfalto entraram no rol dos materiais. Suas performances viraram notícia de destaque no New York Times. Tudo isso sem jamais abrir mão da identidade baiana. Bel acredita que, em tempos de globalização, quem não se agarra aos sinais da própria cultura, perde o rumo. Com estresse.

Se Edinho admira o trabalho de Bel, a recíproca também vale — e muito. “Edinho é um aglutinador”, resume o artista plástico. “Em torno dele se reúnem algumas das melhores cabeças da cidade. No Amado, a comida é especial, assim como a composição da paisagem com a decoração. Tudo se transmuta em algo estimulante.”

Edinho imprime o mesmo tom de elegia para falar da obra do amigo: “Bel é uma cornucópia. Cria o tempo todo, com um talento impressionante. Gosto do fato de que não é um artista só de galerias. Está sempre interagindo com a comunidade, levando sua obra para os olhos de todos os moradores”.

Quando adolescente, Edinho aproximou-se da pintura. Ousou. Arriscou algumas telas. “Descobri que não tenho esse talento”, conforma-se. Desistiu. Já Bel adora cozinhar. “Faço bons risotos”, diz. Diante da informação, Edinho esboça uma indignação gaiata: “E nunca me convidou para comer? Poxa vida!”.

Foi nesse ambiente descontraído, em pleno verão baiano, que a dupla aceitou o desafio de atuar em parceria a pedido de GOSTO. Edinho resolveu interpretar na culinária uma obra de Bel, chamada Fartura, que está em uma parede do restaurante Amado. Trata-se de um quadro feito em alto-relevo, com resina poliéster, reproduzindo uma rede cheia de peixes. Edinho não teve dúvida. Inspirado pela obra, bolou uma caldeirada que faz lembrar um quadro de natureza morta.

O fato de Fartura ser um imagem monocromática, instigou Bel a criar algo radicalmente oposto, repleto de cores, para Edinho traduzir em outra linguagem, numa segunda receita culinária. Surgiu assim, com tinta acrílica sobre tela, o Quadro Azul — um nome decididamente jocoso, pois o azul não é a cor predominante. Bel pintou-o para a filha única, Bela, que está à beira de completar dois anos — outro ponto em comum: Edinho também tem uma filha única, Júlia, de 21 anos. “Quis estimular a menina, que estava sentadinha ao meu lado, com forma, cor e luz e figuras de cães, olhos e humanoides”, explica o artista. “É a essência da minha viagem tonal, gráfica e semiótica.” O chef bateu os olhos e deu vida à outra natureza morta. Uma salada.

Nascido em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, descendente de judeus da Bessarábia, Edinho passou boa parte da infância e juventude na antiga fazenda da família. Matava galinhas. Cozinhava pamonhas. Em 1980, já em São Paulo, formou-se em Ciências Sociais, na USP, e arrumou um emprego no Metrô, na área de planejamento de transporte urbano. “Ganhava bem, mas vi que aquilo nada tinha a ver comigo”, conta. Pediu para ser mandado embora e foi ganhar a vida como ambulante, vendendo pães-de-queijo, broas de fubá, pães húngaros e coxinhas, feitos por ele mesmo em parceria com um amigo. Um ano depois, abriu um botequim-chique-hippie na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, o Fazenda Mineira, frequentado pelos músicos da então chamada vanguarda paulista. Ele lembra: “Arrigo Barnabé e Itamar Assunção não saíam de lá, porque o Teatro Lira Paulistana ficava bem perto”.

Antes que o Fazenda Mineira se tornasse um sucesso, Edinho passou-o adiante. “Não suporto a rotina”, explica. Em um ímpeto, decidiu mochilar mundo afora. De volta à São Paulo, foi estudar culinária com a excelente cozinheira húngara Wilma Kovesi. Só então bandeou-se para Camburi.

De início, o restaurante Manacá vendia apenas café da manhã para turistas. Até marmitas Edinho andou preparando. Pouco a pouco, o Manacá, tal como a flor que lhe dá nome, foi mudando de aroma e forma. Virou referência. Sempre irrequieto, Edinho já pensa em abrir outro restaurante, em um sítio próximo a São Paulo, com horta orgânica e pratos feitos à base de peixes de rio, carne de porco e de aves. Ele avalia: “De certa maneira, uma volta ao gosto primal da infância, embora modificado pela minha história de vida. Minha visão da culinária mineira é agora muito mais particular e, ao mesmo tempo, mais ampla”.

Bel tem inquietação semelhante. “Quando faço um trabalho com vídeo e depois retorno à pintura, volto já com um olhar diferente”, conta. “Picasso dizia que você pode imitar todo mundo, só não pode imitar a si próprio.” Filho de em baiano de Maragogipe com uma conterrânea de Ilhéus, Bel Borba nasceu e cresceu em um dos pontos mais efervescentes de Salvador, o bairro de Canela, onde estão algumas das principais faculdades da capital. O próprio artista, no entanto, não completou a Faculdade de Belas Artes. “Por pura rebeldia juvenil”, esclarece, enquanto ajeita o lenço no pescoço, que lhe empresta ares de um roqueiro dos anos 1970.

Embora requisitado com frequência para trabalhar e expor no exterior — sobretudo, em Nova York —, não consegue se ausentar por muito tempo da geografia, da luz e do povo de Salvador. “Aqui, todo mundo me conhece pelo nome”, diz. Sintonizado com a vanguarda, não hesita, porém, em reforçar a importância da intuição e da espontaneidade, “que são meio renegados pelo artista contemporâneo tradicional”. Quando se dá conta do paradoxo da última frase, faz soar uma gargalhada alta e sincopada, e requisita o aval de Edinho. O chef também escancara um sorriso solar. Amigo é pra essas coisas.