Sobretudo, muito honesto

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Foto do interior do restaurante Dgé, em São Paulo.

O Dgé oferece em São Paulo um bem sacado cardápio, com preços que não assustam e torna possível fazer uma boa refeição abaixo do patamar de 60 reais por pessoa

Por Nero D’Ávila
Foto: António Rodrigues

O Dgé fica numa esquina dos Jardins, em São Paulo. De dia, é esquina febril, em que carros vindos de três vias desembocam numa só. Passada a hora do rush, ela vai ficando mais tranquila e quase silenciosa.

E o Dgé fica, também, em outro tipo de esquina: a da confluência entre bar e restaurante.

Na hora do almoço, é basicamente restaurante, com menu executivo (entrada, principal e sobremesa) honesto, correto e diversificado, que pode, durante a semana, incluir o interessante ceviche de lula com folhas verdes, o risoto de ervas com pintado ou o entrecôte com legumes. No sábado, feijoada.

À noite e à medida que o movimento da rua diminui, basta o cliente lançar um rápido olhar pelo cardápio e já nota o hibridismo da proposta. Sucinto, o menu elenca dezoito itens salgados e a maioria lembra a agilidade da comida de bar. São oito entradas: sete petiscos (destaque para as iscas de pintado e para a “tapioca do Dgé”, com creme de fava, tomate e manjericão) e o escondidinho de músculo, que, numa das visitas, estava excessivamente gordo.

Um segundo item do cardápio é intitulado “panelinhas” e amplia o leque das comidas rápidas: um delicado cuscuz de pupunha, a boa panelinha de moela e um dos maiores acertos da cozinha: a panelinha de rabada, com sabores bem definidos e consistência perfeita, acompanhada de banana-da-terra e focaccia.

Os quatro pratos principais incluem uma massa, um risoto e duas carnes vermelhas. A barriga de porco, servida com excelente farofa de beiju, manga flambada e couve, é bem concebida, mas infelizmente chegou à mesa rija demais.

A última seção de itens salgados é denominada “pratos leves” e traz o melhor prato provado: lasanha de berinjela. O fruto é grelhado em fatias, depois intercaladas com boa ricota e acompanhadas de molho de tomate. Prato simples, mas essencial, contundente.

Das três sugestões de doces que completam o cardápio merecem destaque o brigadeiro com chantilly de cupuaçu e a versão de Romeu e Julieta em camadas, com pão-de-ló e sorbet de goiaba feito na casa.

A carta de cervejas é superior à de vinhos e, apesar de resumida, traz rótulos artesanais de boa qualidade. Para confirmar a vocação de bar, a coquetelaria prepara drinques em geral corretos.

Na contramão dos preços vertiginosos que têm caracterizado o mercado paulistano de restaurantes, o Dgé pratica preços razoáveis e torna possível fazer uma boa refeição abaixo do patamar de 60 reais por pessoa, algo raríssimo hoje em dia. Com muito mais acertos do que erros na cozinha e sem o afetado glamour da atual moda gastronômica, o Dgé talvez aponte para uma nova forma de comer fora: bons ingredientes e boa qualidade, simplicidade, menor custo; ou seja, maior desfrute e menos ostentação.

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