Sopro de renovação

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Vista aérea de vinhedos no Sul da Hungria

As vinícolas desta vasta região da Europa, renascidas com o fim da ditadura comunista, fazem sucesso em todo o mundo e seus tintos e brancos começam a chegar ao Brasil

Por Guilherme Rodrigues
Fotos: Luiz Henrique Mendes

Os vinhos do Leste Europeu estão chegando. Não falamos dos notáveis Tokaji doces. Estes, de tão espetaculares, não deixaram de ser elaborados e distribuídos pelo mundo, incluindo o Brasil, mesmo com as limitações do período de ditadura soviética sobre a Hungria. Aliás, após a queda do Muro de Berlim, a vinicultura em Tokay evoluiu sobremaneira, em quantidade e qualidade. Afora esse ícone especial, os demais vinhos do Leste Europeu, no entanto, como que desapareceram do mundo, durante o período da antiga URSS. A coletivização da produção agrícola — agravada pelo centralismo burocrático e totalitário, além do isolamento — arruinou a vinicultura com a brutal queda da qualidade e da quantidade produzida. Felizmente, com o fim do longo regime obscurantista, a partir da última década do século 20, o grande potencial vitivinícola da vasta região, testemunhado por produção milenar do vinho, renasceu e tomou grande impulso. Os vinhos do Leste Europeu, enfim, começam a fazer sucesso em todo o mundo. Por isso, GOSTO promoveu uma prova especial, para apresentar alguns dos tintos e brancos da região.

Quando pensamos no Leste Europeu do ponto de vista vinícola, consideramos as regiões situadas em latitudes abaixo dos 50°N, extremo para o cultivo da vinha. Isso deixa de fora os chamados Estados bálticos. Da Polônia e da Ucrânia, apenas o extremo sul está na latitude limite. República Tcheca e a Eslováquia produzem algum vinho, mas sofrem com a latitude muito alta. Os dois países mais notórios na produção são a Hungria e a vizinha Romênia, cortadas pelo Rio Danúbio, cuja foz se dá no Mar Negro, em território romeno. A Romênia é considerada a maior produtora, e provavelmente a de maior potencial, embora, por estar distante da fronteira com o Ocidente, sofreu mais com o isolamento e atraso impostos pelo comunismo. Também integram esse trecho a pequena Moldávia, vizinha da Romênia, e o extremo sul da Ucrânia.

Mais ao sul, entre os paralelos 46°N e 42°N, equivalente à maioria das regiões produtoras francesas, norte da Espanha, Toscana e norte da Itália, encontramos: sul da Romênia e da Hungria, Eslovênia (vizinha do Friuli-Venezia Giulia), Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Kosovo, Bulgária. Mais ao sul ainda, Albânia e Macedônia. A Grécia é um caso à parte. No mapa vinícola, está mais para o Mediterrâneo. Eis porque não incluímos seus vinhos nesta prova. Já a Turquia, embora tenha uma fração europeia — ínfima, na realidade —, é, sobretudo, um país inserido na geografia asiática.

Há uma grande quantidade de castas autóctones no Leste Europeu, ao lado de varietais consagrados mundialmente. Nas regiões de latitude mais elevada, os brancos predominam e os tintos são mais leves (ainda que com boa intensidade nos bons exemplares). Cientes de que ainda não são muito numerosos os rótulos disponíveis no mercado brasileiro, organizamos a degustação para chamar atenção dos leitores para este vasto mundo, que começa a se tornar acessível aos amantes dos vinhos. Com certeza ouviremos cada vez mais falar nos vinhos do Leste Europeu.

Equipe da revista GOSTO degustando vinhos do Leste Europeu.É impossível tirar um padrão comum dos vinhos, provenientes de regiões muito diferentes e elaborados com castas distintas. Porém, uma coisa é certa. As amostras provadas refletem vinhos muito bem feitos e acabados, limpos, frescos, interessantes, equilibrados, bem focados e de categoria, fruto de uma enologia qualificada. A prova, às cegas e em copos de degustação, transcorreu no restaurante North Grill do Shopping Frei Caneca [Rua Frei Caneca, 569, 3º piso, tel.: (11) 3472-2038]. Participaram da avaliação, além deste redator, os experientes degustadores de GOSTO: José Luiz Pagliari, José Maria Santana e José Ruy Sampaio. Esteve presente o diretor de redação da publicação, jornalista J.A. Dias Lopes. Após a degustação, o assador Uílians Porto Rocha preparou os suculentos assados da grelha do North Grill. O serviço esteve a cargo do competente sommelier Genivaldo Brito de Lima.

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