Tintos com vida longa

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As vinícolas argentinas Terrazas de los Andes e Bodegas Chandon, do grupo francës LVMH, produzem vinhos equilibrados, com boa qualidade e grande potencial de guarda
Texto e Fotos Por José Ruy Sampaio

Mendoza, na Argentina, é uma região seca, quase desértica, onde chove apenas 30 dias por ano, condição ótima para a produção de vinhos.  Por isso, um grupo de jornalistas e especialistas brasileiros que visitou a área no final de abril, a convite das vinícolas Terrazas de los Andes e Bodegas Chandon, foi surpreendido por quatro dias chuvosos e frios, com temperaturas entre 5°C e 12°C, sem ver nem o sol, nem a Cordilheira dos Andes.  Mas a qualidade dos vinhos provados, especialmente os tintos Cheval des Andes e Terrazas Reserva Cabernet Sauvignon e Malbec, compensou o mau tempo. As duas vinícolas, comandadas pelo diretor Hervé Birne-Scott e pelo grande enólogo Nicolas Audebert, integram o mega grupo francës LVMH, sob supervisão de Pierre Lurton, presidente das lendárias casas Cheval Blanc e Château d’Yquem, em Bordeaux.

O grupo iniciou suas atividades na Argentina em 1969 e tem vinhedos em Vistalba e Perdriel. Em Vistalba, destaque para a Malbec plantada em 1929 em pé franco, isto é, diretamente no solo, sem o uso de porta-enxertos, como acontece em outros países. Lá as plantas são imunes à phylloxera, praga que ataca as raízes. Isso acontece porque os terrenos são arenosos, planos e fáceis de alagamento pela irrigação, características inimigas da sobrevivência do pulgão devastador. Em Perdriel, cidade onde a empresa de origem francesa possui as maiores vinhas, brilha a Cabernet Sauvignon. Desde os anos 1990 produz ali seus mais finos vinhos, o Cheval des Andes, com variável composição de uvas Cabernet Sauvignon, Malbec e um pouquinho de Petit Verdot, e os Terrazas de los Andes Single Vineyards.

“Terrazas” são os vinhedos de altitude, entre 900 e até 1.500 metros acima do nível do mar, onde se desenvolvem muito bem a Malbec, a Cabernet Sauvignon, a Merlot e outras castas, cada uma produzindo melhor em determinada faixa das encostas. Pela secura do clima, a região tem uma incrível rede artificial de canais para a irrigação dos vinhedos. Águas límpidas e transparentes dos degelos da cordilheira formam o rio Mendoza, que abastece o sistema de irrigação por meio de minicomportas que desviam os fluxos de água até as posições desejáveis dentro da vinha. Com equipamentos modernos, as vinícolas podem fazer um controle rígido da quantidade de água necessária para cada planta. Nos vinhedos também existe um sistema forte, caro e rígido de telas, que protegem dos granizos, principalmente no caso da Malbec, cujas cascas são mais finas e frágeis. Uma chuva de granizo pode arruinar a produção de todo o ano, e os danos tendem a ser maiores, pois a recuperação chega a demorar até três anos.

Normalmente, os enólogos resistem a receber visitas nas vinícolas durante a colheita, período de trabalho intenso. Mas na Bodega Chandon e Terrazas de los Andes os jornalistas foram recebidos com toda gentileza.  Puderam conhecer as diferentes fases de produção e provar das várias cubas os vinhos da safra de 2012 em suas várias etapas de elaboração, desde um suco de primeiro dia de fermentação, em seguida de segundo, sétimo, décimo quinto, até os de mais de 20 dias, com o vinho praticamente pronto. Foi uma experiência inesquecível avaliar as diversas etapas da vinificação de um mesmo tipo de uva e de um mesmo vinhedo. As castas são vinificadas separadamente em 60 a 70 grandes cubas de aço e, após seis meses, é feito o assemblage final. O Cabernet Sauvignon amadurece em barricas novas de carvalho francês e o Malbec, em barricas de um ano, com tostado médio.

Um dos pontos altos da visita foi uma prova vertical do tinto Cheval des Andes desde sua primeira edição, em 1999, seguida das safras de 2002, 2006 e 2007. Estavam todos muito bons, finos, delicados e elegantes, com um amadurecimento muito positivo, contrariando os críticos, especialmente os ingleses, para quem os vinhos sul-americanos não conseguem envelhecer bem. O mais antigo, já com 13 anos, estava com ótima estrutura, taninos macios e sem dúvida suportará ainda mais anos de guarda.

Outra simpaticíssima degustação à luz de velas, dentro da adega centenária, estilo colonial espanhol do final de 1800, lindamente restaurada, foi a dos vinhos Terrazas de los Andes, Varietais e single vineyards. Os Cabernet Sauvignon eram das colheitas de 1999, 2002, 2005, 2007, e os Malbec, de 1997, 2001, 2006 e 2008. Todos homogeneamente bons, frutados, com estrutura e tanicidade, mostrando boa qualidade e vida longa.

O aprendizado final foi compreender melhor os truques e prazos na vinificação e descobrir que os tintos de Malbec e Cabernet Sauvignon, equilibrados, com muita cor, estrutura, álcool, fruta e taninos, têm grande potencial de guarda, podendo melhorar com o envelhecimento. Isso foi comprovado tanto nos vinhos com misturas de Malbec, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot, como no Cheval des Andes e nos principais varietais, ou seja, os tintos elaborados com 100% de Malbec ou Cabernet Sauvignon.

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