Tintos do Douro

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Vinhos incomparáveis
Por Guilherme Rodrigues
Fotos Luiz Henrique Mendes

Patrimônio mundial da humanidade, de uma beleza incomparável, a região vinícola do Douro é de longe o terroir mais diversificado do planeta. As vinhas espraiam-se em socalcos e patamares esculpidos pelos lavradores através dos séculos, na rocha xistosa das montanhas. Situam-se entre os 120 e 800 metros acima do nível do mar. Além desta amplitude, os vinhedos podem estar em vales mais apertados ou mais ventilados, com exposições aos quatro pontos cardeais. Sem falar na multiplicidade de castas autóctones. Nas vinhas velhas, onde eram plantadas todas juntas, podem chegar a dezenas e dezenas de variedades. Mas, desde o final da década de 1970, com a racionalização e plantio das cepas mais nobres, em manchas monovarietais, o predomínio é para a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão.

Dessa grande diversidade nascem os espetaculares vinhos do Douro, ao lado de seu irmão mais velho, o fabuloso Vinho do Porto. Aliás, a rigor, seria irmão mais novo, pois na origem da vitivinicultura duriense, há séculos passados, o Vinho do Porto, fortificado, era desconhecido. Começou a difundir-se por volta do final do século 17, passando a dominar totalmente a região nos séculos 19 e 20. Ao final do último milênio, os vinhos secos, não fortificados, chamados de Douro, renasceram em glória. Rapidamente conquistaram o mundo. É deles que tratamos nestas páginas.

Os tintos mostram bom corpo, com as virtudes dos vinhos do Novo e Velho Mundo muito bem sintetizadas: a riqueza, cremosidade e frutado amplo dos primeiros; com a classe, requinte, profundidade e distinção dos últimos. Também são aptos a envelhecer longamente em garrafa. Uma combinação difícil de acontecer, rara, viável em poucos terroirs do planeta, sem dúvida o mais emblemático sendo o do Vale do Douro.

002_G004Resolvemos mostrar aos leitores os melhores rótulos disponíveis na faixa de preços entre R$ 30 e R$ 150. Fomos surpreendidos pela grande quantidade à disposição no Brasil — cerca de 60 —, o que nos obrigou a dividir a prova e desdobrar a reportagem em duas. Os 29 tintos da faixa de R$ 90 a R$ 150 publicamos nesta edição. Na próximo número de GOSTO, estarão contemplados os vinhos de consumo mais corrente, com preços que variam de R$ 30 a R$ 90.

De todas as garrafas, apenas uma estava fora dos padrões. Das safras em prova, 2010 foi um ano difícil, no geral com vinhos menos potentes e encorpados, mas com certa maturidade de fruta, que os torna joviais e bons de beber; 2009 foi um grande ano, fruta madura e cremosa, opulência, força, vigor e sofisticação; 2008, bela colheita, vinhos mais clássicos e elegantes; 2007, dos melhores, uvas bem maduras e ao mesmo tempo com elegância e suavidade; 2006, mais abertos, bons de beber, joviais, interessantes, frescos; 2005, dos maiores, uma síntese de dois aparentes opostos, opulência e refinamento. Por fim, 2004, bela colheita, com boa estrutura, firme e redonda, coberta por fruta bem madura.

A prova foi conduzida às cegas, em copos de degustação. Transcorreu no restaurante North Grill do Shopping Frei Caneca [R. Frei Caneca, 569, 3º piso, tel.: (11) 3472-2038], com o serviço perfeito do maître sommelier Eriomar Novaes, assistido por Ivo da Silva. Participaram da avaliação dos vinhos, além deste redator, os consagrados provadores: Alexandre Rodrigues, José Maria Santana e José Ruy Sampaio. Esteve presente o diretor de redação de GOSTO, jornalista J.A. Dias Lopes. Após os trabalhos, o talentoso assador Aécio Amaral serviu suculentos assados da grelha, que acompanharam perfeitamente os inspiradores tintos do Douro.