Tudo pelo chocolate

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Alexandre Tadeu da Costa dono da Cacau Show é, antes de tudo, um fenômeno.

Por Walterson Sardenberg
Fotos António Rodrigues

Aos 13 anos, ele enchia pneus de automóveis para arrumar uns trocados no bairro da Casa Verde, onde morava, em São Paulo. Aos 44, está com tudo. Tem a maior rede de lojas de chocolates finos do planeta. Sua fábrica, a Cacau Show — em Itapevi, a 35 quilômetros da capital —, soma 55 mil metros quadrados de área construída. Saíram de lá, só no ano passado, 17,8 mil toneladas de chocolate. A pergunta: como o garoto que, com a ninharia amealhada com os pneus e montou a própria bicicleta, conseguiu essa façanha? A resposta parece óbvia: com trabalho duro e ousadia empresarial. Procede — mas não basta.

Quando conversou, animado, com a Revista GOSTO, em junho, ele comemorava a abertura da loja número 1.600 de sua franquia, espalhada por 700 municípios do país. No momento em que o dileto leitor ou leitora acabar de ler a linha anterior, porém, tal número estará desatualizado. A Cacau Show não para. Sua perspectiva é mais alta que o próprio dono, um pirulão de 1,91 m, que, como quase todo pirulão, caminha algo desajeitado. Até o fim do ano serão duas mil lojas. Afinal de contas, qual é o segredo de uma rede que superou em tamanho — e isso já faz seis invernos — a gigante americana Rocky Mountain?

“Os chocolates finos sempre foram caros demais no Brasil. O que fizemos foi democratizar os preços. Torná-los muito mais baixos”, responde Alexandre, de bem com a vida (poderia ser diferente?) e com sorriso aberto. A tão comentada ascensão de uma nova classe média, convenhamos, ajudou um bocado, aumentando o mercado. Mas qual seria o truque de manter os preços acessíveis, mesmo com as idas e vindas da economia?

“O segredo é a alta produtividade”, resume. “Criamos até máquinas para isso, que já patenteamos. Produzimos, por exemplo, 1.500 trufas por minuto. Sempre preservando a qualidade artesanal, claro.” Ele desafia: “Se você encontrar o mínimo que seja de gordura hidrogenada na fábrica, pode ficar com o prédio”. Explicando: se esse artifício químico torna barras e bombons mais resistentes ao calor; em contrapartida, adultera a consistência e o sabor. “Não precisamos disso, pois, tanto a fábrica, quanto a armazenagem, o transporte e as lojas são mantidos na temperatura ideal.”

Como quase toda história de self made man, a de Alexandre fascina. Seu pai, Ademir, trabalhava como tecelão e, para bancar os dois filhos — o dono da Cacau Show tem um irmão mais velho —, mantinha dois empregos. Sorte é que a mãe de Alexandre, Dona Vilma, revelou, pouco a pouco, aptidão para o comércio. “Ela puxou ao pai dela, que foi gerente nas Lojas Zogbi e nas Casas Pernambucanas. Meu talento para o varejo vem daí”, presume.

Vilma começou vendendo cosméticos de porta em porta. Aumentou o portfólio com roupas e utilidades domésticas (incluindo tupperwares) e chocolates. Alexandre costumava acompanhá-la nas visitas aos clientes. “Para provar que as tupperwares não abriam de jeito nenhum, ela me fazia jogá-las para o alto”, conta. “Acertei muito lustre!”

O comércio de Vilma cresceu, embora sem ir muito além do perímetro do bairro e arredores. Como consequência direta, ela contratou outras vendedoras. O próprio marido largou a profissão original para auxiliá-la nos negócios. O adolescente Alexandre, “magro como um palito”, decidiu investir numa área que a mãe abandonara. Sim, a dos chocolates. Deu-se bem. “Comprava do ‘seu’ Osmir da fábrica Genebra, no bairro do Bom Retiro e vendia de porta em porta”, lembra. Quando tinha 17 anos, em 1988, viu-se em um impasse. Havia recebido a encomenda de dois mil ovos de Páscoa de 50 gramas. Seu fornecedor, no entanto, não tinha no estoque. Procurou outros. Em vão.

“Fui até o atacado de barras de chocolate em Santana e, por acaso, conheci Dona Cleusa, que fazia ovos de Páscoa na casa dela”, recorda. Um tio de Alexandre havia lhe emprestado 500 dólares e, com este investimento e a bendita assistência da nova amiga, o jovem empreendedor em apuros foi à luta. Ao lado de Dona Cleusa, passou dois dias e duas noites produzindo ovos de Páscoa. “Nunca tinha feito chocolate na vida”, confessa. Não só escapou do sufoco como pagou ao tio e pôs no bolso 500 dólares de lucro. Era o início, de fato, da Cacau Show.

Em uma salinha de 4 m por 5 m, Alexandre começou a fazer trufas todos os dias. Reservava as manhãs para vender a produção nas padarias, mercearias e mercadinhos. Para convencer os comerciantes do potencial dos produtos, instalava um pote com as trufas e o preço marcado em graúdos números vermelhos, ao lado da caixa registradora. Ainda bem que completara 18 anos. Dessa maneira, pôde comprar e dirigir um combalido Fusca 1978, fundamental na distribuição.

Com o tempo, chegou a ter dois grandes clientes: as Lojas Brasileiras e o Mappin. Comprou máquinas, aumentou o espaço da fabriqueta e, sobretudo, foi em busca de mais informações sobre chocolate. “Fiz um curso de um mês no Barry Colebaut College, na Bélgica”, recorda. A ele se sucederiam muitos seminários, sem contar a visita a mais de 100 fábricas mundo afora. Veio, porém, o revés. “Um dos grandes clientes fechou e o outro quebrou, verbos que definem quem é honesto e quem não é.”

Alexandre mudou a estratégia. Alicerçado na experiência da família, montou uma equipe e passou a vender de porta em porta. Tinha um marketing afetuoso. “Deixava uma trufa em cada residência, com uma cartinha simpática”, diz. Ao mesmo tempo, articulou uma bem azeitada rede de distribuidores. Um deles, João Caldas, comprou tamanho volume que as caixas de chocolate não cabiam no próprio apartamento, na cidade de Piracicaba. “Ele teve de mandar as crianças para a casa dos avós”, diverte-se. Alexandre sugeriu a João: por que não montar uma loja Cacau Show? Foi a primeira delas. Corria o ano 2000.

Hoje, a Cacau Show tem três fazendas de cacau, em um total de 200 hectares. “Algumas empresas fazem do grão à barra, mas só nós vamos da árvore à loja. Um passo antes e outro depois”, orgulha-se. Ainda assim, a inesgotável demanda exige que compre massa de cacau de vários estados brasileiros. Não só. Também da Costa do Marfim, da Indonésia e até da Bélgica. Se exportar chocolates está nos planos, nem por isso Alexandre se afoba. Quer, primeiro, esgotar a capacidade de crescimento no Brasil. Para isso, trabalha quase tanto quanto na época do fusquinha, seu amuleto. Um sonho: “Não vejo a hora de botar um presidente na empresa e ficar só criando produtos”.

Ele adora bolar chocolates. Não fosse trabalho, seria um hobby. Assim como os outros que abraça. Na casa onde mora com a mulher, Ângela (“foi a quinta funcionária da Cacau Show e estamos casados há 15 anos”, e os três filhos — um menino e duas meninas ), Alexandre montou dois cômodos para desfrute pessoal. Um deles é um estúdio de música. “Gosto de tocar guitarra e cantar rocks nacionais dos anos 1980”, diz. Em muitas dessas ocasiões, o filho mais velho, Marcello, de 12 anos, costuma acompanhá-lo na bateria. O outro cômodo exclusivo da residência é uma cozinha. Ali, cria pratos, tão criativos quanto sua própria história. O melhor deles? Um risotto de camarão com morango, gengibre, champagne e — tinha de ser! — grãos de cacau.

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