Tutti frutti

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O rock e a gastronomia têm uma relação muito mais próxima do que se imagina

Por Walterson Sardenberg Sº

Para começar a refeição, Creme, Torta Humilde, Pão, Atum Quente, Sal e Pimenta. Se for do gosto do convidado, um pouco de Pimenta Vermelha Chili e um prato chamado Esmagando Abóboras. Seguindo o regabofe, o conviva pode deliciar-se com Torta de Maçã da Mamãe, Calda de Baunilha, Sonho de Tangerina, Framboesas, Bolo, Cubos de Açúcar e Chocolate Quente.

Eis aí um brunch que não faria feio, mesmo em uma reunião formal, embora os pratos quentes sejam talvez um tanto picantes. No mínimo, este profuso desjejum merece um crédito pelo inusitado: foi montado apenas com nomes de bandas de rock, das mais sortidas gerações e tendências. A saber: Cream, Humble Pie, Bread, Hot Tuna, Salt-n-Pepa, Red Hot Chili Peppers, Smashing Pumpkins, Mom’s Apple Pie, Vanilla Fudge, Tangerine Dream, Raspberries, Cake, The Sugarcubes e Hot Chocolate. Para engrossar o caldo, quem sabe coubesse lembrar a banda Joy of Cooking (Alegria de Cozinhar).

Esse brunch imaginário não atesta, claro, a existência de uma íntima ligação entre rock e gastronomia. Tal relação, todavia, não só existe como passou a se estreitar ao longo das décadas na velocidade do aumento de decibéis. Nos anos 1950, nenhum gourmet levaria a sério o prato predileto de Elvis Presley: um sanduíche difícil de engolir, preparado com banana e creme de amendoim no pão de fôrma. Mas, nos dias correntes, quando muitos chefs se tornam tão famosos quanto astros do rock — e alguns até mais tatuados —, o caminho inverso também vem sendo percorrido. Ou seja, uma leva de roqueiros resolveu meter a colher no angu da gastronomia. Nem sempre da alta gastronomia, diz o refrão.

Ao deixar os Rolling Stones, em 1993, o baixista Bill Wyman desabafou: “Tenho coisa melhor a fazer”. Pouco depois, casou-se com uma menor de idade e abriu um restaurante, o Sticky Fingers (Dedos Pegajosos), nome emprestado de um disco do grupo — por sinal, bem superior a Goat’s Head Soup (Sopa de Cabeça de Bode), outro álbum dos Stones, com título inspirado em um prato típico da Jamaica. Sem modéstia, Bill afirma servir as melhores costelas de Londres. Também Alice Cooper, outro veterano, tem o próprio restaurante, em Phoenix, nos Estados Unidos. A casa leva a sua assinatura e é especializada em barbecue. Já o cantor inglês Mick Hucknall, do Simply Red, foi mais adiante. Não bastasse abrir um bistrô refinado em Paris — numa sociedade com os atores Johnny Depp, John Malkovich e Sean Penn —, batizado com o nome do fotógrafo Man Ray, também passou a produzir vinhos na Sicília, usando a marca Il Cantante.

Enquanto isso, os maquiadíssimos senhores do Kiss deixavam claro, mais uma vez, nunca terem se levado a sério. Preferiram investir no fast food, em três restaurantes nos Estados Unidos chamados Rock & Brews. O forte são os 80 rótulos de cerveja. Não, não consta do cardápio a AC/DC, uma Premium Lager produzida pelo grupo australiano do mesmo nome e, por enquanto, disponível apenas na Alemanha. As lanchonetes com mania de grandeza do Kiss lembram a rede Hard Rock Café, embora esta não pertença a roqueiro nenhum — e sim aos índios Seminoles, da Flórida.

Ainda pesam contra muitos roqueiros, diga-se a bem da verdade, as exigências feitas aos promotores de shows, revelando um paladar em geral tão esdrúxulo quanto o guarda-roupa de Lady Gaga. O folclore sobre estas listas é de empanturrar. Exemplos? O pesado trio Motörhead estabelece nos contratos que os camarins estejam providos de farturas de Kinder Ovo — aquele de chocolate, com um inocente brinquedinho dentro —, enquanto o grupo Van Halen costumava requisitar uma bacia de M&Ms, fazendo uma pequena ressalva: sem nenhum da cor marrom. Ao mesmo tempo, outros roqueiros se revelam mais criteriosos nas exigências. A banda Jamiroquai faz questão de caviar Beluga. Lenny Kravitz, por sua vez, requisita uma seleta tábua de queijos franceses. Outros astros preferem viajar levando o próprio chef, caso dos Red Rod Chili Peppers. Se bem que o infeliz mestre-cuca da banda californiana esteja condenado a receitas pouco incrementadas: waffles e salada de salmão.

Chrissie Hynde, líder do grupo Pretenders, dá muito mais trabalho ao seu chef particular: ama de paixão o açaí, ingrediente que conheceu no Brasil e é dificílimo de encontrar fora daqui. Além disso, a cantora faz parte do irredutível enclave dos roqueiros vegetarianos, capitaneado por Paul McCartney e engrossado por Morrissey, Thom Yorke (do Radiohead) e pela linda Fiona Apple, entre muitos. A diferença em relação ao polido ex-beatle fica por conta do radicalismo de Chrissie. Em um congresso de vegetarianos, ela afirmou, inflamada, que adoraria bombardear as lojas do McDonald’s. Dias depois, uma seguidora doidivanas levou a ideia ao pé da letra e jogou uma bomba em uma filial da rede, em Londres. Chrissie teve de assinar uma retratação para ver-se livre do xilindró.

Seja como for, os conhecimentos culinários dos roqueiros viraram até um programa de TV, o Cooking With Rockstars, comandado por Jen Robbins. Dá para assistir na internet. Isso sem contar a série de livros compilando receitas dos roqueiros. Um deles, The Rock & Roll Cookbook (da editora General Publishing) revela até conhecimentos técnicos sofisticados: o guitarrista Joe Walsh ensina o ponto certo de cozinhar massa de acordo com a altitude. Sim, o caro leitor leu altitude e não atitude — a mais gasta palavra do vocabulário dos críticos de rock.

Ainda mais completo é Rock’n’Roll Cuisine (lançado pela Billboard Books). Há de tudo. Algumas receitas são muito simples, como a do rotundo cantor Meat Loaf (pois é, ele se chama Bolo de Carne): “Ponha cream cheese sobre uma fatia de aipo e acrescente passas”. Outras não passam de tolice temperada com subliteratura: “Coloque diversos raios solares em uma tigela. Misture com o seu sonho de futuro. Adicione uma pitada de esperança e alegria.” Claro que a autora é Yoko Ono, sempre previsível em suas iniciativas vanguardeiras. A maioria das receitas, no entanto, chega a surpreender pela qualidade. Assim ocorre com as dicas de Mick Jagger (caril de camarões), Eric Clapton (sopa de ervilhas) e Phil Collins (chá de menta com pimenta caiena), para ficar em três astros.

Agora, surpreendente mesmo é o Big Feastival. Sua terceira edição ocorrerá de 31 de agosto a 1º de setembro, em uma fazenda no Condado de Oxfordshire, no sul da Inglaterra. A ideia, bem- -sucedida, é reunir 12 apresentações musicais (KT Tunstall, The Milk, The Feeling etc) em um palco ao lado de quiosques de 20 restaurantes de primeiro nível, servindo culinária étnica, britânica, frutos do mar, vinhos, coquetéis, espetos e afins. Juntam-se, assim, as experiências sensoriais do rock às da gastronomia.

O mentor do Big Feastival tem mais cartaz do que os músicos convidados: o chef Jamie Oliver. Trata-se de um roqueiro frustrado. Oliver foi baterista da banda Scarlet Division. Como se sabe, a bateria, em parceria com o contrabaixo, constitui a base rítmica de um grupo de rock. Também conhecida, carinhosamente entre os músicos, pelo termo “cozinha”.