Vinhos das alturas

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Nos vinhedos da bodega Colomé, nas montanhas desérticas de Salta, noroeste da Argentina, nascem alguns dos tintos e brancos com maior potencial de qualidade do país
Texto e Foto de José Maria Santana

A 2.900 metros de altitude ficam as vinhas de Malbec, plantadas em latada, e Pinot Noir, em espaldeira. A 3.000, mais Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Merlot e Malbec. E a 3.111 metros, as plantações mais recentes de Pinot Noir e Chardonnay. Altura Máxima, considerado o vinhedo mais alto do mundo, integra o grupo Colomé, do milionário suíço Donald Hess, megacolecionador de arte moderna e de vinícolas pelo mundo. Colomé, formada por três conjuntos de vinhedos, situa-se em Salta, região desértica no noroeste da Argentina, vizinha da Bolívia e a 1.616 quilômetros de Buenos Aires. Em seus altiplanos estão nascendo alguns dos vinhos com maior potencial de qualidade do país, como o Misterioso Blanco, Colomé Torrontés e os tintos Colomé Estate, Colomé Reserva e o espetacular Auténtico Malbec.

Hess, hoje com 77 anos, descobriu a região em 1996, ao vir à Argentina com a mulher, Ursula, visitar uma tia. Em um jantar, encantou-se com um tinto produzido pela bodega Colomé, então pertencente à tradicional família de Raul Dávolos. Dois anos depois voltou para conhecer a vinícola, fundada em 1831, e fez uma oferta para comprá-la. Dávolos não aceitou e o milionário suíço seguiu outros caminhos. As terras da região pouco valiam na época, pois ali a água é extremamente escassa. Durante uma semana, Hess andou para baixo e para cima nas montanhas desérticas dos vales Calchaquies, apontando para o chão uma pequena haste de metal. Parou em um determinado trecho, quando a ponta metálica começou a balançar. Mandou escavar ali, e a 125 metros de profundidade os operários encontraram um rio subterrâneo. Antes que a notícia se espalhasse, ele foi comprando as desvalorizadas terras ao redor e assim, em 1999, tornou-se dono de praticamente todo o vale.

Em 2001, cheia de dívidas, Colomé foi finalmente posta à venda. O investidor suíço chegou na frente de outros poderosos interessados e incorporou este tesouro a seu portfólio. Possui hoje 65 mil hectares na região, em diferentes propriedades.

Devido à permanente escassez de água, o controle do governo argentino para plantio é rigoroso e, por isso, apenas 270 hectares desse total são ocupados com uvas. O índice de chuvas na área é de ralos 180 milímetros por ano. As plantas precisam ser irrigadas com água do degelo dos Andes, trazidas pelos poucos rios locais, secos a maior parte do ano. Colomé é um oásis perdido nas montanhas, a 230 quilômetros da capital da província, Salta, e a 180 da graciosa cidade de Cafayate. Ali, Hess investiu mais de US$ 20 milhões em melhorias. Formou três reservatórios de água e, como não havia energia elétrica, montou uma usina hidrelétrica. Construiu um luxuoso empreendimento hoteleiro rural, ergueu nova adega e, acima de tudo, buscou recuperar os centenários vinhedos de Malbec e Cabernet Sauvignon. São dez hectares plantados no século 19 com mudas trazidas da França antes do aparecimento da praga filoxera. Para completar, em 2009 ergueu um inacreditável museu ultramoderno para abrigar as obras do artista norte-americano James Turrell, conhecido por levar ao extremo os conceitos de espaço e luz.

Colomé está a 2.300 metros de altitude e tem solo arenoso, com algumas pedras. Próximo dali a empresa possui o vinhedo El Arenal, a 2.600 metros de altura, solos arenosos sem muita complexidade. Já o vinhedo Altura Máxima também tem solos arenosos, com manchas pedregosas e de argila. Nos três adota-se a agricultura biológica. Cada um deles produz vinhos com características próprias. No caso da emblemática Malbec, por exemplo, Colomé dá tintos maduros, com caráter mineral; El Arenal, vinhos com maior acidez e algo mais rústicos; Altura Máxima, apesar de jovem, promete vinhos com grande intensidade floral, toques minerais, com boa acidez para guarda, equilíbrio e elegância. Da mistura dos três nascem os grandes vinhos da casa. O enólogo Thibaut Delamotte, 35 anos, francês da Borgonha que em 2005 veio passear em Salta como mochileiro, gostou do lugar e foi contratado por Hess. Ele ressalta os benefícios da altitude para a qualidade das uvas. “Há muita amplitude térmica, diferença entre os dias quentes e as noites frescas, o que ajuda no amadurecimento e formação de polifenois. As noites frias agregam mais acidez natural e os dias mais frescos não queimam os cachos”, explica. Nas alturas há também incidência maior de raios ultravioleta. “Para se proteger, as uvas desenvolvem pele mais grossa, o que dá vinhos com mais cor, vigor e potência, bons para guarda”, diz Thibaut.

Recentemente Donald Hess implantou novo projeto, a Bodega Amalaya, perto de Cafayate, com vinhedos a 1.700 metros de altura, onde são produzidos tintos e brancos de perfil mais acessível. No total, de Colomé e Amalaya saem atualmente 480 mil garrafas de vinho por ano. O magnata comanda outras três vinícolas pelo mundo: Hess Colection, na Califórnia; Glen Carlou, na África do Sul; e Peter Lehmann, na Áustrália. Mas Hess e a mulher, Ursula, dedicam um carinho especial a Colomé, onde mantém bela casa em um platô a três mil metros de altura. Quando se provam os vinhos ali produzidos, se percorre a paisagem e se conhecem as famílias nativas que ali moravam e hoje trabalham na propriedade, não é difícil entender o motivo da predileção.

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