Vocação confirmada

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Retrato do empresário Pedro Corrêa de Oliveira sorrindo.

Pedro Corrêa de Oliveira herdou do bisavô, em Curitiba, não só o pendor para os negócios, mas a capacidade de fazer amigos, virtude essencial num setor onde muito se dá na base da confiança

Por Luiz Carlos Zanoni

Ser ou não ser. Ser um advogado brilhante como o pai ou um líder empresarial de sucesso como o bisavô e o avô materno, essa era a questão. Ainda garoto, Pedro Corrêa de Oliveira surpreendeu a família ao anunciar a decisão. Nem uma coisa, nem outra. Queria mesmo era ser baterista num grupo de rock e blues — e foi. A banda que formou tornou-se uma das mais requisitadas nas festas e eventos da Curitiba dos anos 1980. Hoje, no escritório de sua empresa, a importadora Porto a Porto, ele lembra com saudade daquela época, mas não se arrepende da virada que faria alguns anos mais tarde, já na adolescência, quando trocou a paixão da infância pela que agora dedica ao mundo dos negócios. A genuína vocação estava no sangue, vinha do bisavô, Pedro Demeterco, patriarca de uma geração de líderes empresariais. Foi quem revolucionou o comércio na capital paranaense ao adotar o sistema de autoatendimento em sua loja.

Bem que o pai, Lamartine Corrêa de Oliveira, advogado eminente, autor de livros clássicos na área das ciências jurídicas, tentou mudar a cabeça de Pedro, dando-lhe uma função em seu escritório. Mas fazer o quê, a inclinação do rapaz era outra, e a Lamartine só restou apoiá-lo. Apresentado pelo pai, ele obteve a representação de editoras do eixo Rio-São Paulo especializadas em livros jurídicos. Visitava os escritórios de advocacia, oferecendo diretamente os catálogos. Deu-se bem. “Sempre gostei disso, de comprar e vender”, revela. Essa atividade preparou-o para os desafios que viriam depois.

Em 1985, aos 21 anos, Pedro ingressou no principal ramo de negócios da família. O avô, José Luiz Demeterco, havia convertido a loja do pai em uma das grandes redes de supermercado do Paraná, a Mercadorama, presente em numerosos bairros de Curitiba e em cidades do interior. A rede exibia, como diferencial, uma forte identificação regional e a qualidade dos produtos e serviços. Mesmo sendo da família, Pedro não teve colher de chá. “Passei por todos os setores, açougue, padaria, hortifrutigranjeiros, depósitos, administração”, conta. E sem queixas, muito pelo contrário. “Foram anos ricos em aprendizado.”

Já tarimbado, assumiu em 1992 a unidade de Maringá, no norte do estado, com liberdade para desenvolver vários projetos próprios, como a aliança com os pequenos agricultores do município para a expansão das lavouras de hortaliças e frutas, com a garantia de compra pelo supermercado. “Até aí”, ele conta, a produção local era mínima, tudo vinha de fora.” O êxito foi arrasador, tanto que a ideia passou a ser adotada em outras unidades. Também por sugestão de Pedro os produtores de leite da região se tornaram os primeiros no Paraná a utilizar embalagens Tetra Pak. As coisas iam bem até que a globalização mostrou suas garras. Pressionado pela concorrência das grandes empresas multinacionais, o Mercadorama acabou sendo absorvido, em 1998, pelo grupo português Sonae. Pedro assistiu ao fim de um ciclo. Coube-lhe iniciar outro.

O Brasil vivia um momento especial naquele fim da década de 1990. Com a maior abertura às importações, o consumidor estava ávido pelas novidades que por tanto tempo lhe foram negadas. Pedro tinha experiência comercial e estreitas relações com fornecedores do país e do exterior. A junção dessas peças só poderia resultar numa importadora, e assim nasceu a Porto a Porto, “desde o primeiro dia com décadas de tradição”. Os parceiros de primeira hora são sempre lembrados. Messias Vigário, diretor da tradicional vinícola Casa Messias (Douro e Bairrada), foi um deles. E o vinhateiro nunca teve por que se lamentar: seus rótulos tornaram-se líderes de vendas no segmento de vinhos portugueses.

Desde o início o vinho respondeu por parte substancial do movimento da empresa. Logo o portfólio se reforçou com outros produtores, como Denis Dubordieu (França), Nieto Senetiner (Argentina), Marques de Tomares e Cava Don Román (Espanha), Nederburg (África do Sul), Camigliano (Itália) e Santa Carolina (Chile). Na área alimentícia veio a linha Paganini, com produtos da gastronomia italiana a bons preços — massas, conservas, azeite de oliva. Também o lombo de bacalhau Dias, fornecido congelado e dessalgado, junto com os embutidos ibéricos e o porco preto do Alentejo. E um produto está surpreendendo, a cerveja. A marca trazida pela Porto a Porto, a alemã Paulaner, tem dobrado as vendas a cada ano.

Mas nem sempre foi fácil. Houve turbulências, a pior delas motivada pela desvalorização da moeda, o real. Ainda se consolidando, a empresa balançou feio, mas conseguiu manter a rota e emergiu mais forte da crise. Um passo importante foi dado em 2003: o pacto operacional com a Casa Flora, de São Paulo. Como havia complementaridade entre os catálogos, as importadoras decidiram atuar em conjunto nas respectivas áreas, a Porto a Porto no Sul, a Casa Flora no Sudeste. A escala dos negócios, com isso, aumentou sem necessidade de novas estruturas. Essa parceria estreitou-se mais no ano passado com a criação da Veloz Logística Integrada, cujas instalações, na Região Metropolitana de Curitiba, já armazenam e distribuem todos os produtos das duas empresas. Pedro Corrêa de Oliveira herdou da família não só o pendor para os negócios, mas a capacidade de fazer amigos, virtude essencial num setor onde muito se dá na base da confiança. A relação com Adilson Carvalhal Júnior, diretor da Casa Flora, é um exemplo. Tornaram-se amicíssimos, o que contribuiu para cimentar a integração das empresas. Juntas, elas ocupam o terceiro lugar entre as maiores do país no segmento de bebidas e alimentos.

Atuar como importador tem aspectos gratificantes para o empresário. Um deles são as viagens, tarefa que cumpre com o maior prazer, campeão em milhagens aéreas. Outro é o caráter do comércio ao qual se dedica, ligado aos produtos enogastronômicos. Pedro aprecia bons pratos, bons vinhos, faz das suas na culinária. O showroom da importadora, no bairro do Seminário, em Curitiba, está equipado com uma cozinha modelo onde ele prepara pessoalmente algumas de suas especialidades para os convidados que recebe. A paleta de javali no forno é muito requisitada. Esse interesse levou-o a patrocinar vários lançamentos editoriais sobre o passado e as tradições da cozinha paranaense. Há um novo, em preparação, que garimpa todos os restaurantes — com as respectivas culinárias — fundados na região sul do estado desde a época dos primeiros colonizadores. Na Porto a Porto, diz, o lema é sempre procurar fazer algo mais. O bisavô e o avô, com certeza, teriam orgulho de assinar embaixo.

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