Por Michel Berndt

Lembro-me como se fosse ontem a primeira vez em que tomei um Moscow Mule. Foi em um bar em Los Angeles no ano de 2005 (por incrível que pareça, eu já era maior de idade). Não me recordo o nome do bar, mas ficava em uma das ruas mais boêmias da cidade, a Sunset Boulevard (guarde bem esse nome, essa rua tem um papel importante na história!).

Estava com mais dois amigos. Nós havíamos ido a um congresso de computação gráfica em San Diego e resolvemos passar uns dias em LA antes de voltar ao Brasil. O bar era pequeno e escuro, com um longo balcão, mesinhas e sofás baixos. Naquela época, eu já era bem curioso em relação à coquetelaria, mas como meus amigos eram cervejeiros, acabava ficando mais daquele lado dos fermentados do que deste lado dos destilados (desculpem o péssimo trocadilho, não resisti!).

Ao avistar um grupo segurando lindas canecas de cobre, imediatamente veio a pergunta ao garçom: “O que vai nesse drink?”. Ele me explicou os ingredientes, disse que era um clássico e que não poderia ir embora de Los Angeles sem experimentar um. Pois bem, depois desse dia virei um aficcionado por Moscow Mule.

Vamos ao que interessa? Eis a curiosa história da nossa querida Mula de Moscou. Poucos sabem, mas por trás desse refrescante coquetel está uma das maiores jogadas de marketing da história das bebidas.

Ao que interessa…

Tudo começou na Paris no final dos anos 30, depois da marca de vodka Smirnoff quase entrar em falência  – sim, vocês leram certo! Apesar da origem russa, a fábrica da Smirnoff ficava na França nessa época. Foi logo depois, em 1941, que John G. Martin, um alto executivo da área de bebidas, ao saber da notícia, fez uma oferta para tirar a marca do buraco e acertou sua compra por módicos 14 mil dólares.

Ele prontamente foi tido como louco! Pudera, já que naquela época tudo que os patriotas americanos menos queriam era tomar uma bebida de origem russa (por motivos óbvios). Ele ficou alguns anos com esse elefante branco nas mãos, até que um dia teve uma brilhante ideia enquanto visitava o bar de seu amigo Jack Morgan, o famoso Cock’n Bull, em Los Angeles (adivinhem o nome da rua?).

Jack era dono de uma cervejaria homônima ao bar, e estava com um estoque encalhado de Ginger Beer, pois na época os americanos tomavam muita ginger ale e não eram muito chegados na cerveja de gengibre. “Minha vodka e sua cerveja estão encalhadas? Pois vamos misturar as duas e criar um coquetel!”, pensou John. Foi com a ajuda do chefe de bar do Cock’n Bull, Eric Felton, que saiu a primeira versão do Moscow Mule, adicionando um toque de limão aos dois ingredientes principais.

Anúncio da vodka Smirnoff com alusão ao drink Moscow Mule

Por coincidências do destino, a namorada de Jack Morgan, Ozaline Schmidt, que tinha herdado uma fábrica de produtos de cobre, estava presente no dia e resolveu entrar junto no negócio, oferecendo suas canecas.

Mas o mais interessante ainda está por vir! John Martin tinha ótimo relacionamento com outras grandes empresas americanas e tinha acabado de receber de presente um gadget moderníssimo para a época: uma máquina fotográfica que imprimia fotos na hora – a famosa Polaroid!

Foi aí que a mente brilhante de John teve a grande sacada! Ele começou a ir nos bares da cidade oferecendo a seguinte proposta aos bartenders: ele os ensinaria a fazer um coquetel novo, que utilizava vodka (dele), cerveja de gengibre (do amigo Jack) e limão, e que deveria obrigatoriamente ser servido numa caneca de cobre (da namorada de Jack).

Ao terminar de ensinar a receita, ele prontamente pedia para tirar uma foto do bartender com a caneca na mão e o mesmo. Ao ver a foto sair de dentro da máquina como num passe de mágica, logicamente ficava deslumbrado. Era nesse momento que John fazia a proposta: “Eu lhe dou essa foto agora, para você mostrar para seus amigos e familiares, desde que eu possa ficar com uma pra mim”. E é claro que eles aceitavam com um belo sorriso no rosto!

+ Veja mais: Clique aqui para ver um vídeo (em inglês) sobre a história do Moscow Mule contada por seu criador, John Martin.

Com essas fotos em mãos John percorreu todos os bares da cidade, oferecendo fazer o mesmo. Foi assim que ele conseguiu popularizar o Moscow Mule, associando a imagem da caneca de cobre ao coquetel e, consequentemente, aos ingredientes que eles vendiam dentro dele. Ok, vocês devem estar pensando nesse momento: “mas e a espuminha?”.

Pois bem, a nossa querida “espuminha” do Moscow Mule foi criada há poucos anos pelo mixologista brasileiro Marcelo Serrano, então chefe de bar do Brasserie des Arts, renomado restaurante de São Paulo. Em vez de usar a cerveja de gengibre, ainda rara no Brasil, ele criou uma espuma de gengibre caseira, servida em sifão de chantilly. Essa nova receita fez tanto sucesso que o coquetel em pouco tempo se tornou o mais pedido e alguns clientes inclusive levavam as canecas de cobre como souvenirs para casa.

A receita de Marcelo, que hoje serve de base para a maioria dos Moscow Mules brasileiros, é um pouco mais doce do que a original, portanto não se assuste ao pedir um MM fora do Brasil. O gosto pode ser um tanto quanto diferente. A propósito, alguns dizem que a origem do nome Moscow Mule vem do simples fato de que depois do terceiro ou quarto drink, você deve tomar cuidado com o coice da mula!


Confira abaixo duas versões do clássico drink:

Receita Clássica (com Ginger Beer)

  • 60ml  de vodka
  • 15ml de suco de limão
  • Complete com Ginger Beer em um copo de cobre com bastante gelo

Receita @Mix-o-Logic (com espuma de gengibre)

  • 60 ml de vodka
  • 20 ml de suco de limão
  • 20 ml de xarope de açúcar*
  • Complete com espuma de gengibre por cima**

* Xarope de Açúcar (1:1)

  • Aqueça água mineral ou filtrada numa panela
  • Acrescente a mesma quantidade de açúcar.
  • Mexa até que o açúcar derreta por completo
  • Deixe esfriar e mantenha em geladeira

**Receita da espuma de gengibre:

  • 300ml xarope simples
  • 100ml suco de limão
  • 40ml suco do gengibre
  • 100ml clara de ovo
  • Coloque todos os ingredientes em um sifão de chantilly

Variações:

  1. Kentucky Mule: Use bourbon whiskey no lugar da vodka.
  2. London Mule: Use gin no lugar da vodka.
  3. Brazilian Mule: Use cachaça no lugar da vodka.

Michel Berndt é arquiteto de formação, criativo de profissão e mixologista por opção. Sua paixão pela coquetelaria fez com que seu perfil @Mix_o_Logic no Instagram se tornasse o maior do Brasil, sendo mencionado e comentado por influenciadores do mundo inteiro. Se considera um home-bartender e tenta se aperfeiçoar a cada dia através de cursos, livros e… bares!

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