Devo admitir. Antes de começar a trabalhar com vinho e a mergulhar, literalmente, na cultura do fermentado de uva durante todo o ano, achava que a bebida era coisa de inverno. Quase sempre optava por tintos encorpados, alcoólicos e de caráter maduro – Malbec e Cabernet Sauvignon reinavam em casa. Ainda sinto que a melhor combinação para esse estilo de vinho é mesmo uma noite frio de inverno, um prato mais substancioso.

Por sorte, o mundo do vinho é muito maior (e podemos escolher uma série de vinhos para beber até nos dias mais quentes!). Você só gosta de vinho tinto? Não se preocupe, pois não precisamos falar só de brancos, rosés e espumantes quando procuramos frescor em taça. Existem tintos refrescantes, sim, da mesma forma como existem brancos mais pesados, que vão muito bem no inverno (assunto para outra estação).

“Mas o que é frescor num vinho tinto?”, você deve estar se perguntando.

Para começar, esse frescor se faz notar nos aromas, que normalmente remetem a frutas vermelhas frescas, ervas recém retiradas da horta ou flores exalando perfume. Isso nos vinhos jovens, que têm pouco ou nenhum estágio em carvalho. Esses vinhos costumam ter corpo de leve para médio e baixa graduação alcoólica (até 12%), sendo a acidez vibrante a coluna dorsal deles e a responsável por refrescar o paladar.

Você vai encontrar facilmente vinhos desse estilo se abrir um vinho feito com a uva Pinot Noir ou Gamay. Ambas, conhecidas por representar exatamente os vinhos tintos de corpo leve, têm origem francesa. A delicada Pinot Noir, mais popular ao redor do mundo do que a Gamay, é muito encontrada na França (onde dá origem aos abastados Borgonhas), mas também na Argentina, no Chile, nos Estados Unidos (sobretudo no Vale do Sonoma, na Califórnia), e – por que não – nas regiões mais frias do Brasil. Já a Gamay é um pouco mais difícil, mas isso não significa que você não vai conseguir encontrá-la. Será mais fácil procurar por Beaujolais, região da França que dá origem a vinhos produzidos 100% a partir da variedade.

Existem alguns cortes tradicionais de regiões mais frias que também dão origem a tintos mais leves. Os Valpolicellas de entrada são um exemplo clássico: eles são normalmente produzidos a partir das uvas Corvina, Molinara e Rondinella, cultivadas nas colinas do Vêneto (onde também nasce o icônico Amarone della Valpolicella, este, definitivamente, um tinto para o inverno!). Outro corte clássico é o conhecido pelas siglas GSM (que significa Grenache, Syrah e Mourvèdre), muito comum no sul da França, principalmente no Vale do Rhône. O estilo pode variar de acordo com as porcentagens de cada uva no corte, mas via de regra são vinhos jovens, bons para refrescar.

A título de curiosidade, os tintos refrescantes, é claro, não se resumem a essas uvas. Embora seja um pouco mais difícil de se identificar isso olhando o rótulo diante de uma prateleira, o frescor e a leveza também dependem um pouco da mão do produtor, do estilo da vinícola, do método de vinificação, da região onde as uvas foram cultivadas e da safra. Alguns vinhos feitos, por exemplo, por meio de um método chamado maceração carbônica, em que a fermentação começa a acontecer dentro da própria uva, antes de a casca se romper, também são famosos pela leveza e pelo frescor. Muitas vezes, os vinhos do Vale do Rhône são feitos a partir desse método, assim como alguns Beaujolais e Pinotages da África do Sul.

Será que já provou alguns desses vinhos?

Se a resposta for não, sugiro que corra até a loja de vinhos mais próxima e garanta pelo menos algum dos vinhos leves e refrescantes que indiquei antes que o verão acabe!

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