Vinhos da África

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Nos últimos 20 anos, a vinicultura da África do Sul se renovou. Hoje, mais do que Pinotage, oferece ótimos Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e Syrah

Por José Maria Santana*

Os vinhedos se estendem pelas planícies, rodeadas de montanhas de pedra e muito verde, e sobem pelas encostas. De muitos deles se vê, ao fundo, o azul do mar. Nessa bela paisagem, que se multiplica pelas várias regiões de Westhern Cape, os produtores da África do Sul fazem apostas e buscam uma identidade própria para seus vinhos. Muita gente ainda associa a África do Sul ao tinto Pinotage. Não é o que se observa ao visitar o país. Nas vinhas, as uvas que mais se destacam, e que dão origem aos vinhos mais expressivos, são as brancas Chenin Blanc e Sauvignon Blanc, e as tintas Cabernet Sauvignon e Syrah. Foi um caminho agitado até aqui. Em 2014, os sul-africanos comemoraram 20 anos de democracia. Em 1994, houve as primeiras eleições livres após a queda do apartheid – o odioso sistema de segregação racial, que, durante décadas, sufocou a nação — e a posse de Nelson Mandela como presidente. O país tem 55 milhões de habitantes e 11 línguas oficiais. Foram duas décadas de mudanças, incluindo-se aí a que renovou a vinicultura local.

O cultivo da uva no país é bastante antigo. A primeira vinha data de 1659. No século 18, ganhou fama nas cortes europeias o Klein Constantia, um branco doce untuoso e equilibrado, produzido até hoje. Mas, o que realmente interessa, é o que aconteceu depois de 1990, com a extinção do apartheid. Até então boicotada pelo mercado internacional, finalmente a África do Sul pôde vender seus tintos e brancos no exterior. Na época, a produção era dominada pela KWV, uma gigantesca cooperativa, que exportou muito Pinotage para o mundo. Como não havia preocupação com a qualidade, ficou o hábito de associar os vinhos do país com essa uva e seus tintos algo rústicos. Com esforço, investimentos e outra mentalidade, uma nova geração de produtores está conseguindo mudar essa imagem.

Vinhedo no Western Cape, na África do Sul, em um dia ensolarado e de céu limpo.A África do Sul é o oitavo maior produtor de vinhos do planeta, com 100 mil hectares de vinhedos, concentrados principalmente na província de Western Cape (foto), onde fica a linda Cidade do Cabo, no sul do país. Há ainda uma pequena parcela na vizinha Northern Cape, junto ao rio Orange. Grosso modo, em Western Cape há cinco regiões vinícolas, divididas em 24 distritos, sendo os mais conhecidos Stellenbosh, Paarl, Constantia, Franschhoek, Robertson, Durbanville, Swartland e Olifants River. O clima é seco, com invernos frios e verões quentes. A Pinotage, que poderia ser o que a Malbec é para a Argentina, provoca polêmica entre os enólogos. “É uva?”, brinca Marc Kent, ex-piloto de jatos, enólogo da Boekenhoutskloof, no vale de Franschhoek. Para ele, a casta é parte da história da África do Sul, mas já cumpriu seu papel. Hoje é apenas a terceira casta mais cultivada no país (6,9% do total).

A Pinotage foi criada, meio por acaso, em 1925, quando o professor Abraham izakPerold, da Universidade de Stellenbosch, tentando encontrar uma planta resistente ao clima local, fez o cruzamento da PinotNoir com a Cinsault (lá chamada Hermitage). “A Pinotage acabou puxando mais à robusta Cinsault do que à delicada Pinot Noir”, diz Pierre de Klerk, jovem enólogo da Graham Beck, em Robertson, vale do rio Breede. Para ele, “a Pinotage é uma uva difícil, temperamental”. Ao mesmo tempo, se bem trabalhada, pode dar vinhos maravilhosos, como comprovam os Pinotage da Kanonkop, vinícola de Simonsburg, em Stellenbosch, comandada por Johann Krige — não por acaso conhecido como Mr. Pinotage. Seus rótulos são importados no Brasil pela Mistral.

De qualquer forma, as apostas hoje seguem em outras direções. Entre as brancas, destaque para Sauvigon Blanc e, especialmente, Chenin Blanc, que, em sua região de origem, o vale de Loire, na França, sofre com a acidez elevada nos anos em que não amadurece bem.

Para Alex Dale, um dos proprietários da vinícola familiar Radford Dale, o clima mais quente da região do Cabo favorece a maturação da Chenin Blanc, sem reduzir sua gostosa acidez, bem como os aromas típicos a mel e palha. Na ala tinta, a casta mais plantada na África do Sul é a Cabernet Sauvignon (11,8% do total), de que se encontram ótimos exemplos (ver quadro). Para muitos enólogos, o clima semelhante ao mediterrâneo e os solos antigos, arenosos, com manchas de granito decomposto e xisto, também favorecem o desenvolvimento da Syrah (10,5% do total de vinhas do país). “Aqui temos áreas com climas quentes e bastante sol”, explica Pierre de Klerk. “Principalmente nos vinhedos mais elevados, há áreas com pouca água e solos graníticos, muito bons para Syrah”. Por fim, é importante lembrar que as grandes bandeiras da vinicultura sul-africana atualmente são o respeito ao meio ambiente e a agricultura sustentável. Prova de que a centenária vinicultura local busca a modernidade.

*A reportagem de GOSTO viajou à África do Sul a convite da Wines of South Africa.

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